Darkness in El Dorado - Archived Document
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Source URL: http://www.umich.edu/~idpah/SEP/sep_cor.html


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Ianoblefe
Janer Cristaldo

Capa
Não-ianomânis:
Índios Nhambiquara Mamaindê, rio Cabixi
Foto Major Thomaz Reis
Fonte: Índios do Brasil das Cabeceiras do Rio Xingu, dos Rios Araguáia e Oiapóque
Conselho Nacional de Proteção aos Índios, 1953
Nos 3 volumes, não estão relacionados os "antigos" ianomâmis

Edição
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Fonte Digital
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Versão para eBook
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Copyright:
© 2000 Janer Cristaldo
cristal@altavista.net


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IANOBLEFE
JANER CRISTALDO

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SUMÁRIO
Introdução
19 mortos
40 mortos: Itamar demarca área caiapó
73 mortos: índio não mente
Desaparecem os corpos
Presos 3 garimpeiros
Criado Ministério da Amazônia
ONU pode enviar missão à Amazônia
89 mortos: massacre foi na Venezuela
Uma nação ianomâmi
Quatro dentes confirmam massacre
Ombudsman vê mistério na aldeia
Três pseudo-sobreviventes
Ministro da Justiça invadiu Venezuela
De 120 a 16 mortos
Genocídio de Itararé
Itamar investiga país estrangeiro
Que bom que foi na Venezuela
Cabaças e cinzas sagradas
PF indicia 23 garimpeiros
A vida imita a tese
Deus é grande; a Funai é maior
Ex-Brasil
Violência ianomâmi
Existem ianomâmis no Brasil?
Uma Teocracia na Amazônia


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Ianoblefe

o jornalismo como ficção
Janer Cristaldo

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"Com o império, segundo todas as probabilidades, acaba também o Brasil.
"Este nome de Brasil, que começava a ter grandeza, e para nós portugueses representava um tão glorioso esforço, passa a ser um antigo nome da velha Geografia Política. Daqui a pouco, o que foi o Império, estará fraccionado em Repúblicas independentes, de maior ou menor importância. Impelem a este resultado a divisão histórica das províncias, as rivalidades que entre elas existem, a diversidade do clima, do caracter e dos interesses, e a força das ambições locais. Já mais de uma vez as províncias têm feito enérgicas tentativas de separação: e o separatismo tornara-se, nestes derradeiros tempos, um dos mais poderosos factores da Política.
"O Brasil, além disso, não está forçado a conservar-se unido pelo receio de ataques ou represálias duma metrópole forte, de que acabasse de se emancipar, nem tem possibilidades algumas de aspirar, como os Estados Unidos, a uma supremacia política ou econômica de que a unidade seria a inevitável condição. Nenhuma das razões que impuseram a união aos Americanos do Norte, se dão no Brasil. Por outro lado, há absoluta impossibilidade que de que S. Paulo, a Baía, o Pará, queiram ficar sob a autoridade do general fulano ou do bacharel sicrano, Presidente, com uma corte presidencial no Rio de Janeiro. Para que isso se realizasse, mesmo por alguns meses, seria necessário que surgisse um homem (que não há) de popularidade universal, incontestada e irresistível em todo o Império, como a de um Washington. Os Deodoros da Fonseca vão-se reproduzir por todas as províncias. Já decerto em Mato Grosso há um Deodoro que afivela a espada. Ora, a condição de popularidade, para estes ambiciosos, será proclamar o exclusivismo dos interesses provinciais; e já disto mostra sintomas o presidente do Pará, querendo fechar a navegação do Amazonas.
"Os Estados, uma vez separados, não poderão manter paz entre si, sendo abundantes os motivos de conflitos – as delimitações de fronteiras, as questões hidrográficas e as alfândegas com que todos, naturalmente, se hão-de querer criar rendimentos. Cada Estado, abandonado a si, desenvolverá uma história própria, sob uma bandeira própria, segundo o seu clima, a especialidade da sua zona agrícola, os seus interesses, os seus homens, a sua educação e a sua imigração. Uns prosperarão, outros deperecerão. Haverá talvez Chiles ricos e haverá certamente Nicaráguas grotescos. A América do Sul ficará toda coberta com os cacos dum grande Império!"

Eça de Queiroz, 1890

"Eu nunca duvidei da tenacidade e ferocidade desses índios. É claro que essa minha observação jamais – até quando eu for funcionário da Funai – poderá ser dita ou publicada. Isto só prejudicaria o trabalho de aculturação até agora realizado junto aos waimiris-atroaris. Sou criticado e até ameaçado pelas famílias dos trabalhadores que tombam diante das flechas malignas desses índios, algozes e violentos, mas sei que estou cumprindo o meu dever. Um dia eles hão de compreender o sacrifício. Já não penso na família, nos meus nove filhos. Só penso na paz que eu poderei dar um dia a esses índios, mesmo sabendo de seu caráter violento, da sua rebeldia, de sua vontade de matar o branco.
"O índio waimiri-atroari é um ser tão sensível – como todos os índios – que um menor olhar diferente do branco é suficiente para ferir a sua sensibilidade. Eu nunca quis saber porque os índios matam ou deixam de matar. Eles sempre deixam alguém para contar a história. Eu sei que, se eu perguntasse, eles se revoltariam, mas a Funai sempre quis que eu os interrogasse para saber as causas que os levaram a chacinar os trabalhadores. Eu não faço isso. Depois de qualquer chacina eu volto ao Alalau ou Abunari com a mais absoluta confiança nos índios.
"Medo dos índios eu não tenho, confio neles. Tenho-os como meus filhos, considero-os o prolongamento de minha casa. Ando armado de revólver na floresta, mas não atiro nos índios em caso de um ataque. Se me matarem um dia, paciência."

Gilberto Pinto, sertanista
(massacrado pelos waimiris-atroaris em 1974)

"Aproximadamente 40% dos adultos machos participaram do assassinato de outro ianomâmi. A maioria deles (60%) matou apenas uma pessoa, mas alguns homens foram muitas vezes guerreiros bem-sucedidos e participaram do assassinato de mais de 16 pessoas".

Napoleon Chagnon, antropólogo


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Introdução


O ano de 1993 ficará na história do jornalismo como o do maior blefe já registrado na imprensa nacional e internacional, o "massacre" dos ianomâmis que, mesmo sem ter ocorrido – até hoje não se tem prova material alguma de qualquer chacina – provocou lesões irremediáveis na imagem do Brasil no exterior e terá reflexos no desmembramento territorial do país.
Esta pesquisa não é uma acusação a colegas de redação. É reflexão sobre uma velocidade de processamento de texto que faz o jornalista preocupar-se com vírgulas e acentos e deixar de lado o fundamental: houve ou não houve o fato? Onde está a prova, o corpo de delito?
A Justiça brasileira demorou um ano e alguns dias para oficializar a morte de Ulysses Guimarães, ocorrida em 12 de outubro de 1992. Há foto do deputado entrando no helicóptero que caiu no mar, foram encontrados os corpos do piloto e de sua mulher, há uma evidência absoluta da morte do parlamentar. Somente em 24 de setembro de 1993, sua morte foi reconhecida pelo juiz Paulo César de Almeida Sodré. Oficialmente, no entanto, Ulysses só foi considerado morto em 15 de outubro de 1993, quando o despacho do juiz foi publicado no Diário Oficial da União. Esta demora de um ano para o reconhecimento de uma morte evidente deveu-se ao fato de que o cadáver do deputado não havia sido encontrado. As autoridades brasileiras, em 24 horas, definiram como genocídio um suposto massacre sem cadáver algum, "ocorrido" na Venezuela.
Já foram encontrados os corpos do czar Nicolau II e da família imperial russa, assassinados pelos bolcheviques em 1918, e até hoje não temos um único indício de uma chacina ocorrida em agosto de 1993, com repercussões internacionais que ameaçam a soberania do Brasil sobre seu território. Tivemos 19 mortos, depois 40, depois 73, depois 89, depois 120, depois 16, quando de fato não houve – e até hoje não há – nenhum. Enfim, dispõe-se de uma ossada, de data de morte incerta, que não evidencia massacre nem dá indícios do assassino.
O ministro da Justiça, Maurício Corrêa, contentou-se com esta ossada antiga para denunciar, de imediato, genocídio. A Polícia Federal, apesar das continuadas declarações de que não havia provas do crime, não hesitou em fazer um relatório, mais de dois meses depois da data da "chacina", denunciando 23 garimpeiros pelo assassinato de 16 índios, dos quais não se tem sequer um pedaço de osso, a não ser nas declarações de índios e funcionários da Funai. Há fotos de cabaças que conteriam as cinzas dos corpos cremados. Mas não podem ser examinadas, pois são "sagradas".
Sem prova alguma de nada, a Procuradoria da República denuncia por crime de genocídio 24 garimpeiros (inicialmente, seriam 23). É a primeira vez que o Ministério Público apresenta à Justiça brasileira este tipo de denúncia. Os 24 indiciados no genocídio podem ser condenados a 30 anos de prisão.
Parlamentares, bispos e cardeais, diplomatas, policiais, militares, jornalistas, todos foram envolvidos pela chacina e dela se tornaram cúmplices. Congresso Nacional, Forças Armadas, Conselho de Defesa Nacional, Igreja Católica, imprensa nacional e internacional, enviados especiais e correspondentes do exterior, governo brasileiro e governos estrangeiros, todos caíram no conto do massacre, contado inicialmente pelo índio Antônio e pelo senhor Cláudio Romero.
Havia um cheiro de chacina no ar, um desejo de tragédia na ponta dos dedos dos comunicadores. Com a queda do muro de Berlim e o desmoronamento da União Soviética, qualquer bandeira nova, mesmo esfarrapada, vem bem. Eivada de uma filosofia terceiro-mundista, a intelligentsia brasileira apostou tudo no blefe.
O massacre dos 62 ashaninkas no Peru – ocorrido no mesmo mês em que se denunciava a suposta chacina dos ianomâmis – não rendeu manchete mais que um dia. Tampouco gerou protestos internacionais. Índio peruano não serve como bandeira. Por um lado, o Peru não tem uma Amazônia tão vasta e apetitosa como a brasileira. Por outro, o Sendero é movimento que também se opõe ao branco ocidental, logo compagnon de route. Decididamente, os 62 bugres peruanos não mereciam mais que algumas linhas da mídia.
A presente pesquisa se atém fundamentalmente a dois jornais, entre os mais importantes da imprensa do país e, conseqüentemente, latino-americana: o Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo. Em verdade, toda a imprensa nacional – e internacional – assumiu o massacre. Se com apenas uma análise rápida do noticiário destes dois jornais, a affaire se torna cansativa, a inclusão de outros tornaria o estudo enciclopédico e redundante. Veja e Istoé – na condição de semanários de porte do país – não deixam de entrar no baile, como também – em menções sucintas, alguns dos principais jornais da Europa e Estados Unidos.
As diferenças de grafia de substantivos, comuns ou próprios, seguem os critérios de redação do jornal em que as notícias foram publicadas.


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19 mortos


Funai acusa massacre de ianomâmis
*Sobrevivente diz à Folha que garimpeiros são os responsáveis
Assim mancheteou a Folha de São Paulo no dia 19 de agosto de 1993. A notícia chegou no final de tarde do dia anterior na redação. Rápidos no gatilho, os jornalistas criaram uma editoria de crise e elaboraram um caderno de nada menos que seis gordas páginas. Uma manchete trágica, com uma linha fina incisiva, encimava a capa do caderno:

Funai acusa chacina de índios; crianças teriam sido degoladas
Ianomâmis afirmam que garimpeiros foram responsáveis por massacre; representante da categoria nega
Vamos aos fatos.
"Pelo menos 19 índios ianomâmis foram assassinados na reserva em Roraima, anunciou a Funai. A Folha entrevistou, via rádio, um dos sobreviventes, o índio Antônio, 25. Ele contou que dez crianças, cinco mulheres e dois homens foram mortos e tiveram braços, pernas e cabeças cortadas por garimpeiros. O ataque, segundo Antônio, ocorreu há quatro dias. Em Brasília, o presidente da Funai, Cláudio Romero, disse que os garimpeiros fizeram represália à operação que tenta expulsá-los da reserva. O representante dos garimpeiros, José Altino Machado, atribui as mortes aos próprios índios".

Leia o caderno "Ianomâmis"
Temos portanto um fato, a chacina. Um número, 19. Duas fontes: o índio Antônio, 25, e o presidente da Funai em Brasília. Data também não falta: o massacre ocorreu há quatro dias, ou seja, dia 15 de agosto. Há também detalhes. Os mortos são dez crianças, cinco mulheres e dois homens, que tiveram pernas, braços e cabeças cortadas. Vilões é o que não falta. Foram os garimpeiros os culpados pela chacina. Motivo do crime: represália à operação que tenta expulsar os garimpeiros da reserva. Foi também ouvido o famoso "outro lado", que negou a chacina. Ocorre que era fonte pouco confiável, afinal era o representante dos garimpeiros.
Foram respeitadas todas as boas regras do jornalismo. O abre de primeira página deixa no ar uma pequena imprecisão. O leitor não fica assegurado de que são exatamente 19 os índios chacinados. São "pelo menos 19". Ou seja, pode ser muito mais. Esta imprecisão é facilmente explicável do ponto de vista jornalístico. Primeiro, o redator tem sempre a esperança de que o número possa ser maior, e cadáver sempre faz manchete. Segundo, pelos padrões do jornal, a partir de dez, os numerais devem ser grafados com algarismos, e não se pode começar frase com algarismos. Logo, o "pelo menos" é recurso que se impõe ao redator e transmite ao consumidor de mídia a excitante perspectiva de que a chacina possa ter sido de uma centena.
Toda matéria é assinada na Folha. Mesmo que o artigo saia sem autor, há uma assinatura eletrônica de cada texto redigido. Dia seguinte, um relatório rigoroso aponta, em cada redator, erros em três áreas: português, digitação, padronização. Um a um. Qualquer vírgula ou acento errado é denunciado, como também inversões de letras ou falta de parágrafos. O redator-Folha vive sob tensão. Se tiver uma média de três ou quatro erros por dia, pode dançar no final da semana. É normal então que, perto da meia-noite do dia 18 de agosto, esclarecida a chacina e composto o caderno especial, vagasse pela editoria de crise uma dúvida atroz: a palavra ianomâmi leva ou não leva acento circunflexo? Decidido que levava, os redatores respiraram aliviados. E o caderno baixou para impressão. Missão cumprida.
O leitor atento de jornais já terá observado que, toda vez que há um massacre, acidente, terremoto ou incêndio de maiores proporções, a notícia sempre começa com o indefectível "pelo menos". Não é falta de imaginação do redator. São as exigências de forma do jornal. Quanto ao conteúdo, se houve ou não chacina, dada a dinâmica do ofício, isto sequer é questionado. O que importa é a manchete. Jornalismo é título. Sem falar que sobre a cabeça do redator paira a sombra do "principal concorrente". Que não deixou por menos, afinal o "outro concorrente" pode dar furo. Assim mancheteia o Estado de São Paulo:

Ianomâmis são chacinados em Roraima
Garimpeiros acusados da morte de 19 índios, entre os quais 10 crianças
No fundamental, os dados coincidem. São 19 os índios mortos e os assassinos são os garimpeiros. Depois começam as divergências: já são quatro, segundo o Estado, os índios que narram a chacina. Os repórteres precisam inclusive o local do massacre, já que em jornalismo não se deve apenas dizer quando e como, mas principalmente onde. "O massacre teria ocorrido na maloca de Haximu, no sábado ou domingo passados, em área próxima à fronteira do Brasil com a Venezuela, dentro da área ianomâmi". A "editoria de crise" viveu uma dúvida atroz: afinal, é Haximu ou Hoximu? Na página 3,

Índio sobrevivente viu corpos decapitados
Folha entrevista ianomâmi que afirma ter encontrado dez crianças, cinco mulheres e dois homens mortos
De novo, 17. Mas a Funai fala em 19 vítimas. Segundo a Polícia Federal seriam 17. A fonte já não é o índio Antônio, mas a PF. Segundo o administrador da Funai em Roraima, Suami Persílio dos Santos, 50, foi "a mais brutal chacina da história dos conflitos entre garimpeiros e ianomâmis, que já duram mais de cinco anos".
Na mesma página, o correspondente da Folha nos Estados Unidos, rápido no gatilho, envia a repercussão:

EUA RESPONSABILIZAM GOVERNO PELAS MORTES
"A notícia do massacre dos ianomâmis em Roraima causou horror e indignação nas pessoas que tiveram acesso a ela em Washington. A cidade está vazia de autoridades neste final de verão e nas férias do presidente Clinton. Mas as pessoas com quem a Folha falou ontem foram unânimes em responsabilizar o governo federal brasileiro pela tragédia".
O biólogo Thomas Lovejoy, "assessor científico do secretário do Interior dos EUA, especialista em florestas tropicais e encarregado das relações internacionais do Instituto Smithsoniano" – quanto mais títulos, mais autoridade – disse: "O mais irritante é que esse é um incidente que se esperava que acontecesse. Apesar dos esforços para retirar os garimpeiros daquela área, acho que ninguém nunca acreditou que eles fossem sair sem uma ação permanente e sustentável". Lovejoy, com sua mentalidade científica e premonitória, diz esperar "que isso seja capaz de galvanizar consciências no Brasil".
O correspondente não conseguiu entrevistar o secretário do Interior dos EUA, Bruce Babbitt, "que em maio recebeu Davi Ianomami e outros quatro líderes indígenas brasileiros que vieram a Washington pedir apoio para a demarcação de suas reservas", pois Babbitt estava no Alasca. Mas soube, através de sua porta-voz, Mary Helen Thompson, que ele havia sido informado do incidente e estava "profundamente entristecido".
Rachel Joseph, diretora do National Congress of American Indians, entidade governamental que congrega os "nativos americanos", também entrevistada pelo repórter, foi taxativa: "É uma ação desumana, ultrajante, execrável. Vamos fazer tudo que estiver ao nosso alcance para que as autoridades dos EUA tomem ações para impedir que que esse tipo de incidente aconteça outra vez. Vamos recomendar ao governo brasileiro, nos termos mais fortes possíveis, para que encontre e puna os perpetradores desse massacre".
Barbara Bramble, diretora da National Wildlife Federation, "uma das mais importantes entidades ambientalistas do mundo", não deixa por menos. Entrevistada pelo correspondente, declara: "Muitos casos de mortes de índios têm acontecido no Brasil por doença ou acidente. Mas eu não tenho conhecimento de nada similar a esse incidente com seus requintes de sadismo. É inevitável que essas coisas ocorram se não houver uma forte ação do governo brasileiro para impedir a invasão de territórios indígenas por garimpeiros".
Bruce Rich, do Environmental Defense Fund, "organização que tem 250 mil filiados e patrocinou a vinda de Davi Ianomami a Washington em maio", afirmou ao repórter: "Este incidente se deve à falta de cumprimento das leis de demarcação das reservas indígenas". Rich, mal sabe do massacre, diz estar enviando cartas ao "ministro da Justiça Maurício Correia e ao embaixador Rubens Ricúpero pedindo investigação rigorosa deste crime e punição para os culpados e cumprimento da lei de demarcação das reservas".
As pessoas que tiveram acesso às notícias sobre o massacre dos ianomâmis são cinco. Temos então o horror unânime de cinco cidadãos, em um país de 250 milhões de habitantes. Logo, como diz a manchete, os EUA responsabilizam o governo pelas mortes.
No Brasil, a indignação não é menor. Cláudia Andujar, coordenadora da comissão pela criação do parque ianomâmi – fotógrafa romena de passaporte suíço, brasileira naturalizada e ianomâmi por adoção – é taxativa: "a chacina é resultado da omissão do governo. Por trás dos garimpeiros estão forças econômicas e políticas que não aceitam a demarcação da terra dos ianomâmis. Há um lobby contra a demarcação".
Syron Franco, artista plástico, vocifera: "Essa chacina no Brasil é um absurdo. São 493 anos de massacre dos índios com impunidade. O governo federal é omisso. Só falam, vão lá e não fazem nada. Depois que passa o episódio, ninguém mais lembra do caso".
O senador tucano Mário Covas, penitente, não só assume sua parcela de culpa no massacre, como também nos convida a carregar a cruz: "É um absurdo que isso continue ocorrendo. Pensei que esse tipo de conflito já havia acabado. O governo pode até não ter instrumentos para garantir a integridade desses povos. Mas todos nós somos responsáveis por este tipo de crime no Brasil".
Orlando Villas Bôas, profissão indigenista: "A morte desses índios já estava traçada. O índio está marginalizado pelo governo. Infelizmente não existe mais tutela do governo sobre os índios, eles estão jogados à própria sorte. Deve-se dar mais recursos para a Funai".
Dom Paulo Evaristo, cardeal Arns: "Lamento o fato tão horripilante e desumano de pessoas armadas destruírem a vida de pessoas inocentes. Lamento também que o nome do Brasil, que já está tão deteriorado no exterior, sofra mais uma vez com uma mancha de sangue e com uma desonra que os brasileiros não merecem".
Fábio Feldmann, deputado, não tem dúvidas: "Isto é um genocídio programado. É dar solução muito simples para a questão do ianomâmi: a eliminação física do índio. É necessário criar lei para punir quem entra na reserva e os que aliciam os garimpeiros para a exploração mineral".
Inocêncio de Oliveira, o água-tenente de Serra Talhada, perfurador impenitente de poços próprios com dinheiro público e presidente da Câmara dos Deputados, extravasa seu senso de justiça: "Devemos imediatamente identificar os culpados e puni-los. É lamentável que fatos dessa natureza aconteçam em nosso país".
O Itamaraty, preocupado com a irritação do presidente Itamar pelo fato de os diplomatas não terem anunciado no exterior o massacre da Candelária, reagiu rapidamente. Flávia de Leon, da sucursal da Folha em Brasília, nos informa: "A diplomacia brasileira despachou ontem mesmo, para todos os 120 postos do Brasil no exterior, as informações e medidas sobre o assassinato dos índios ianomâmi".
Até agora, o Itamaraty não viu cadáver algum, não sabe quando, nem onde, nem como ocorreu a chacina.
Ou seja, em apenas dois jornais brasileiros, no primeiro dia das notícias sobre o massacre, temos:

* Uma chacina: 19 mortos.
* Pernas, braços e cabeças cortadas.
* Um sobrevivente, o índio Antônio, para a Folha; quatro para o Estado.
* Entre os chacinados, segundo a Folha, há dez crianças, cinco mulheres e dois homens.
* Se 10 + 5 + 2 = 17, isto é o de menos, pois 19 mortos sempre é melhor manchete que 17.
* O Estado confirma: são dezenove os mortos: dez crianças, sete mulheres e dois mortos. Logo 10 + 7 + 2 = 19. Desta vez, fecha.
* Já temos os criminosos: são os garimpeiros.
* Personalidades nacionais e internacionais condenam o massacre.
* Um artista plástico, Syron Franco, tem o número exato de anos de massacre, 493. Se houve massacre, houve quem massacrasse. Embora o artista especialista em história de genocídios não cite os massacrantes, a data indica 1500 e um criminoso óbvio, o branco europeu. Quanto aos 62 funcionários da Funai mortos pelos índios, as dezenas de brancos assassinados pelos txucarramães, krain-a-kore, waimiris-atroaris, enfim, as tradições culturais indígenas devem ser respeitadas.
* Cardeal Evaristo Arns, que advoga a libertação de sequestradores (desde que canadenses), lamenta o "fato tão horripilante de pessoas armadas destruírem a vida de pessoas inocentes".
* No abre do caderno "Ianomâmis" temos na Folha boa aritmética: "A Funai (Fundação Nacional do Índio) anunciou ontem a morte de pelo menos 19 índios ianomâmis – dez crianças, sete mulheres e dois homens". Desta vez os números fecham.
* Se o leitor descer os olhos pela página do caderno, voltará à confusão anterior. Na "caixinha" que remete à página 3, o número é 17, segundo o sobrevivente Antônio. Se vamos ao texto da página 3, o equívoco parece elucidar-se. Segundo a linha fina são dez crianças, cinco mulheres e dois índios. Logo 17 e não 19, como líamos na capa do caderno especial "Ianomâmis".


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40 mortos: Itamar demarca área caiapó


Toda esta indignação foi manifestada antes mesmo que se soubesse das verdadeiras dimensões do massacre. No dia seguinte, 20 de agosto, a Folha nos mostra que aquele "pelo menos 19" era precaução técnica de quem quer bem informar. O massacre, como se intuía, tinha maiores dimensões.

40 morrem no massacre ianomâmi
A Folha não proíbe numerais em algarismos em início de manchete, que mais não fosse o "pelo menos" roubaria centímetros preciosos do título. A linha fina, que estabelece um diálogo com o título, e que deve ser sempre grafada em itálico, esclarece:

Expedição da Funai encontra corpos mutilados e cremados na aldeia; 15 garimpeiros mataram os índios

A pesquisa avança. Os correspondentes em Homoxi e Boa Vista nos informam que "pode chegar a 40 o número de índios mortos na reserva inanomâmi em Roraima. A Folha "informa que 15 garimpeiros mataram os índios. A chacina ocorreu em represália ao suposto assassinato de três garimpeiros por ianomâmis". O assassinato dos garimpeiros é suposto. O dos ianomâmis, uma evidência.

Barbárie
Garimpeiros massacraram 40 ianomâmis
Surge agora um chapéu, barbárie. Em jargão de jornal, é a palavra que encima uma reportagem. Segundo o "Novo Manual de Redação" da Folha, é "palavra ou expressão curta colocada acima de um título. Usada para indicar o assunto de que trata o texto ou os textos que vêm abaixo dela". Chapéu tem força. Estamos tratando de um caso de barbárie. O texto, assinado "Da redação", justifica plenamente o chapéu:
"Pode chegar a 40 o número de índios ianomâmis mortos por 15 garimpeiros na maloca de Haximu, em Roraima. Funcionários da Funai (Fundação Nacional do Índio) e da PF (Polícia Federal) encontraram ontem os corpos dos índios, muitos deles mutilados. Alguns foram decapitados a golpes de facão".
Estes apostos entre parênteses constituem um recurso jornalístico para bem informar o leitor, para que este saiba que Funai significa Fundação Nacional do Índio e PF quer dizer Polícia Federal. A redação nos informa ainda que o ministro da Justiça, Maurício Correia, e o procurador-geral da República, Aristides Junqueira, foram para a área da chacina. O massacre tocou fundo na consciência nacional. No dia seguinte à denúncia do massacre,

Itamar manda demarcar área caiapó
"O presidente Itamar Franco anunciou ontem a decisão do governo em homologar a demarcação de uma área de 4.900 hectares no sul do Pará, habitada por 600 índios caiapós, em duas aldeias. O anúncio foi feito pouco mais de 24 horas após a divulgação da chacina dos ianomâmis em Roraima".
Na foto que acompanha o texto, "os caiapós comemoram demarcação da área Menkrangnoti". Diz o texto: "O chefe caiapó Raoni, que estava ontem em Brasília, comemorou a homologação da área Menkragnoti: "Gostei muito. Fiquei muito feliz, disse ele, no Palácio do Planalto, ao exibir cópia do decreto assinado por Itamar. Apesar do régio regalo, Raoni não está muito contente com o "governador do Brasil". O chefe indígena, segundo a notícia, disse que Itamar é o "culpado" porque "o homem branco é o povo dele". Seu "povo não mata branco".
Dois detalhes antes de continuar o relato da chacina. Raoni, apesar de todo rigor objetivo da Folha, não é caiapó, mas txucarramãe. Quanto à afirmação de que seu povo não mata branco, disto falaremos mais adiante.
Página seguinte, chapéu, título e linha fina tornam mais preciso o fato:

A chacina
Crianças e mulheres foram mutiladas a facão
Segundo a Funai, garimpeiros brasileiros foram responsáveis pelas mortes que 'praticamente' dizimaram a aldeia.

Além de um box, que ratifica e precisa o número de autores do massacre,

Chacina envolve
15 garimpeiros
temos uma arte. O Manual da Folha define o que é arte: "Tudo o que puder ser apresentado na forma de tabelas, mapas, quadros e gráficos não deve ser editado na forma de texto. A tendência do jornalismo é a utilização cada vez maior de artes, principalmente coloridas, que atraem mais o leitor que o texto. É fundamental que as artes sejam cuidadosamente produzidas e revisadas. Uma arte nunca deve ser um texto disfarçado de arte. Arte é linguagem visual. Seus textos são apenas complementos dessa informação, por isso devem ser antes de mais nada concisos".
A arte, em falta de foto do fato, se destina ao leitor que até mesmo dispensa a leitura, mas quer ver o que aconteceu. Em relação a este tipo de leitor, a Folha sempre é generosa. Temos então uma arte:



Uma arte infra situa o local da chacina.







O leitor vê não só o massacre, como também o local do massacre. À direita, uma tripa – como dizemos em jornal – confirma o fato que o leitor viu:

Corrêa vai ao local do crime
"O ministro da Justiça, Maurício Corrêa, e o procurador-geral da República, Aristides Junqueira, tiveram uma passagem tumultuada por Boa Vista, ontem à tarde. os dois permaneceram por uma hora e meia na base aérea da cidade e se recusaram a dar entrevistas, porque não tinham novas informações sobre a chacina. Quando levantaram vôo, chegou a confirmação de que havia pelo menos 40 índios mortos".
O local da chacina também está perfeitamente definido:
"A maloca de Haximu, onde os ianomâmi foram chacinados, fica na serra do Parimã, na fronteira do Brasil com a Venezuela; é um local praticamente inexpugnável. Somente de helicóptero ou caminhando pela mata é possível chegar.
"As buscas ao local da chacina fracassaram no primeiro dia. Na manhã de ontem, outros sobreviventes da aldeia, os índios João Antonio e Txamnini, se ofereceram para identificar a maloca. Tiveram mais sorte.
"A equipe da Funai e da PF encontrou o local pela manhã. Depois de fazerem o reconhecimento, os agentes retornaram à base aérea de Surucucu. Foi neste local que Maurício Corrêa recebeu informações sobre o massacre".

Página seguinte:

OAB QUER INTERVENÇÃO FEDERAL EM RORAIMA
Não bastasse isto,

ARISTIDES JUNQUEIRA DENUNCIA GENOCÍDIO
Por um lado, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, José Roberto Batochio, diz que vai propor um processo de intervenção federal em Roraima, por causa da chacina do ianomâmis, nesta altura inconteste: "Se o ministro da Justiça, Maurício Corrêa, não tomar enérgicas providências, a OAB vai entrar com uma ação no CDDPH (Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana) do Ministério da Justiça. "É lamentável o que ocorreu. Isto não pode ficar impune. A chacina dos ianomâmis tem a mesma dimensão do massacre da Candelária"
O procurador-geral da República, Aristides Junqueira, pronuncia a palavra que se quer ouvir: "Não tenho dúvida, pois se forem confirmadas as mortes haverá multiplicidade de homicídios, numa demonstração de se quis exterminar uma etnia. Isto é genocídio".
Ainda na mesma página:

Deputados acusam o governo
Nada menos que cinco deputados federais, "ouvidos pela Folha", responsabilizam o governo pelo "assassinato dos índios ianomâmis": Aécio de Borba (PPR – CE), Aroldo Goés (PDT – AP), Avenir Rosa (PDC – RR), Pauderney Avelino (PDC – AM) e Ricardo Murad (PFL-MA).

Na página 1-12, a opinião dos

MILITARES
Garimpeiro também é vítima, diz ministro
General Zenildo de Lucena critica extensão da reserva ianomâmi, mas é contra a aculturação acelerada

Para o ministro do Exército, a reserva ianomâmi é muita terra para pouco índio. O general toca no cerne da questão: "Concordo com essa tese de que é área demais para pouco índio. A relação índio-território está um pouco exagerada".
O general pode ter usado a palavra vítima durante a entrevista. Mas em momento algum, no texto publicado, ela é proferida. De qualquer forma, o ministro constata que "eles (garimpeiros) são cidadãos brasileiros e assim devem ser tratados. Devemos procurar soluções – e sei que talvez seja difícil – de colocá-los, orientá-los para determinadas áreas, organizá-los".
Sobre a ocorrência da chacina, o general parece não ter dúvidas. Pergunta-se, isto sim, sobre quem seriam seus autores: "Alguém precisava ter informações mais precisas. Se tivesse um órgão lá para manter informado o ministro da Justiça, que é quem decide sobre a Funai, ele poderia assessorar melhor o presidente, evitar essas campanhas, saber se os índios foram realmente mortos por garimpeiros ou se foi uma luta de índios".
A Folha colhe opiniões junto ao Clube Militar. O general da reserva Sebastião Ramos de Castro, considera que a reserva ianomâmi "é absolutamente exagerada e, daqui a pouco, cria-se uma nação indígena sob o protetorado da ONU dentro do território brasileiro".
Em sub,

Comandante diz que reserva é ameaça ao país
Américo Martins, o enviado especial a Boa Vista, entrevista o comandante interino das 1ª Brigada de Infantaria de Selva, coronel João Paulo Saboya Burnier. O repórter da Folha quer saber se a reserva indígena representa uma ameaça à integridade nacional.
"Tenho certeza absoluta. Há a possibilidade de criação de uma área indígena, em uma área do território nacional e outra de território venezuelano. Ora, uma nação não sobrevive dentro do território de outra nação. Isso ameaça nosssa integridade. As tribos ianomâmis deveriam, na nossa opinião, ser aculturadas, paulatinamente, com respeito às suas características. Elas deveriam ser orientadas a sair da miséria".
O repórter quer saber como a reserva ameaça a integridade nacional, já que o Exército pode policiar as fronteiras naquela área.
"Porque o perigo não é o de ocorrer um confronto entre indígenas e cidadãos brasileiros. Pessoas que se consideram representantes desses indígenas permitiriam que uma organização não governamental quisesse influir, por exemplo, numa eventual discussão entre uma nação indígena e o restante da nação brasileira. Há muita discussão no exterior neste sentido".
Américo Martins vai ao cerne da questão: "o sr. se refere à idéia de internacionalização da Amazônia?"
O coronel é claro:
"Eu estou dizendo: uma intervenção clara sobre a Amazônia. Todas as ONGs são representantes de algum Estado. A criação da ONG (Organização Não-Governamental) é para encobrir o governo que está por trás. Essa foi uma forma de se ultrapassar a soberania de um país sem ferir direitos internacionais. Quem tem acesso ao país para fazer, por exemplo, um levantamento dos recursos minerais não é este ou aquele Estado, e sim uma ONG. Se fosse feito um rigoroso controle dos estrangeiros, você iria verificar que entra aqui uma pessoa como se fosse médica e na verdade é uma geóloga".
A Folha quer saber se o coronel acredita na eventual criação de uma nação indígena:
"Creio, sim senhor", responde o coronel Saboya Burnier.
Mais adiante, pág. 1-13, temos a

REPERCUSSÃO
Embaixada em Londres é alvo de protesto
Entidade não governamental envia carta a Itamar Franco responsabilizando o governo pelo massacre

Da reportagem local, informa Carlos Seidl:
"A Survival International, entidade não-governamental para a defesa dos direitos dos povos indígenas, vai entregar hoje à Embaixada do Brasil em Londres uma carta endereçada ao presidente Itamar Franco responsabilizando o governo federal pelo massacre dos índios ianomâmis. O gesto faz parte de uma manifestação de protesto contra o massacre, prevista para as 13h (9h em Brasília), em frente da embaixada brasileira na capital britânica.
"Participam da manifestação, organizada pela Survival International, as seguintes entidades não-governamentais sediadas em Londres: Oxfam, Christian Aid, Cafod, CIIR (Instituto Católico de Relações Internacionais), Fundação Gaia e Brazil Network.
"Jonathan Mazower, diretor da Survival International para a América Latina, disse à Folha, falando pelo telefone da sede da entidade em Londres, que a Survival – movimento internacional criado em 1969 para a defesa dos povos tribais e que conta com 15 mil membros em todo o mundo – coloca a culpa do massacre no governo brasileiro porque "Brasília não mostra a vontade política necessária para proteger os seus cidadãos mais vulneráveis".
No pé da página, a Folha nos dá a íntegra de uma carta que ainda não foi recebida nem entregue, e muito menos enviada:

Leia íntegra da
carta da Survival
A Folha publica a íntegra da carta dirigida ao governo brasileiro, que representantes da Survival International e outras organizações não-governamentais vão entregar hoje à Embaixada do Brasil em Londres. O destinatário ainda não a recebeu, mas o público leitor de jornais já conhece seu conteúdo:
"Como representantes das agências que trabalham pelos direitos humanos e bem estar social no Brasil, queremos registrar nosso horror com relação às informações sobre o massacre de mais de 17 índios em Roraima, divulgadas no dia 17 de agosto, inclusive com a decapitação de dez crianças.
"Sabemos que o governo brasileiro demarcou o território ianomâmi como uma área indígena, mas este incidente mostra que não foram tomadas medidas efetivas para proteger a população indígena. Acontecendo tão cedo depois do massacre da Candelária, esta atrocidade deixa o governo brasileiro à mercê da acusação de não ser capaz de proteger os mais fracos de seus cidadãos.
"Pedimos que transmita nossa preocupação ao governo brasileiro e exortamos as autoridades a levarem a efeito a mais rigorosa investigação possível, para assegurar a punição dos responsáveis, e a tomarem medidas efetivas para garantir a segurança do povo ianomâmi".
A carta é assinada pelas organizações que, neste 20 de agosto, devem participar às 13h (9h em Brasília) de uma manifestação frente à embaixada do Brasil em Londres. A manifestação ainda não ocorreu, a carta ainda não foi entregue. A Folha informa seus leitores sobre o que vai acontecer hoje. Detalhe curioso da carta. Se as denúncias na imprensa brasileira surgiram nos jornais do dia 19 de agosto, as ONGs consideram que elas foram divulgadas no 17.
De Brasília, confirmando as apreensões do coronel Saboya Burnier, nos informa Kátia Cubel:

Câmara protela projeto sobre reserva
"A Câmara dos Deputados vem protelando a aprovação de um projeto que regulamenta a entrada na reserva ianomâmi e pune os que invadirem a área. A proposta, datada de junho de 91 e assinada por 58 parlamentares de diversos partidos, determina penas de prisão para os invasores e seus mandantes e estabelece critérios para o ingresso, o trânsito e a permanência na selva".
Uma arte nos dá os principais pontos do projeto:
* Transforma o decreto que delimitou a reserva ianomâmi em lei. A partir disso, só com a autorização do Congresso Nacional pode haver modificações na área * Além de índios, apenas funcionários públicos, cientistas e representantes de entidades não-governamentais podem entrar na reserva, com a autorização da Funai * A autorização para o ingresso nas áreas indígena será precedida por exames médicos que comprovem a ausência de doenças infecto-contagiosas.

No que tange às punições, temos:

* Detenção de seis meses a dois anos, mais multas, para quem entrar na reserva sem autorização
* Dois a cinco anos de cadeia, mais multa, para quem possuir ou guardar equipamentos e maquinária na área ianomâmi sem autorização do Congresso
* Dois a cinco anos de cadeia, mais multa, para quem realizar pesquisa ou lavra de recursos minerais sem autorização prévia do Congresso Nacional
* A pena aumenta em um terço para quem promover, organizar, dirigir ou incentivar atividades irregulares na área ianomâmi

O projeto, nos diz Kátia Cubel, "confirma a delimitação dos 9 milhões de hectares da reserva e proíbe o ingresso daqueles não pertencentes a grupamentos indígenas na área". O mentor do projeto é o deputado Fábio Feldmann (PSDB-SP) e conta com a adesão de mais 57 deputados. Ainda na mesma nota, Cubel nos passa um dado significativo. Segundo o deputado José Dirceu (PT-SP), "o Congresso precisa acordar com essa chacina e aprovar logo isso. Agora é a hora de o projeto ir à votação".
Ao alto e à esquerda da mesma página, temos a ratificação do massacre:

ONTEM NA TV
Deu na CNN
Apesar de estarmos apenas no segundo dia da revelação da tragédia, diz Nelson de Sá:
"Demorou um pouco, mas a CNN finalmente entrou no massacre. Chamando pelo nome, "massacre". Lembrando o detalhe de horror, das "crianças decapitadas". Mas também tomando o maior cuidado, só afirmando que as autoridades brasileiras acreditam que mineiros do ouro mataram 30 índios ianomâmis.
"Só afirmando que "é o que dizem autoridades de assuntos indígenas". Quer dizer, o mundo ainda não está sabendo que o massacre foi massacre. Por enquanto, o que corre é a versão apresentada ontem pelo programa World News, sem imagens, com tudo restrito à locução.
"Mas é só questão de tempo para a confirmação bater no mundo. Itamar Franco poderá então culpar os embaixadores. Ontem mesmo já ensaiava a nova bronca. "O presidente está preocupado com a repercussão internacional da chacina", dizia Boris Casoy. "As organizações internacionais protestam contra a chacina", dizia Sérgio Chapelin".
De Brasília, Flávia de Leon nos dá a fonte na qual se baseiam as "autoridades brasileiras":

Itamaraty se baseia na Folha
"O Ministério das Relações Exteriores usou ontem o caderno "Ianomâmis" da Folha para abastecer as principais embaixadas no exterior com informações sobre a chacina dos índios na região noroeste de Roraima. O Itamaraty mandou cópias do noticiário nacional para 14 representações diplomáticas na Europa (incluindo o Leste), Estados Unidos e México. O noticiário da Folha foi considerado o mais completo pelo Ministério das Relações Exteriores.
"Estes postos receberam atenção prioritária por terem que informar as ONGs (Organizações Não-Governamentais) consideradas mais ativas. O caderno "Ianomâmis" e algumas reportagens de outros jornais foram transformadas em um cliping de 14 páginas, transmitidas por fac-símile. Como o custo da transmissão é muito alto, os outros 106 postos brasileiros receberam as informações consideradas de rotina – o fato e as primeiras medidas do governo. Essa operação vai continuar nos próximos dias".
Logo abaixo,

ONGs
Exterior condena massacre
Informam os correspondentes que "em Genebra, onde ocorre a Conferência Anual das Nações Unidas sobre os Direitos Humanos, ontem à tarde todos buscaram informações sobre o ocorrido em Roraima. Representantes de ONGs (Organizações Não-Governamentais) procuraram membros da missão brasileira junto às Nações Unidas para tentar se informar. A partir do meio-dia, a televisão Euronews, com programação exclusivamente informativa, divulgou o massacre em todas as edições, com imagens e mapas do Brasil e da Amazônia para ilustrar a narração.
"Um representante do Conselho Internacional dos Tratados Indígenas disse que o massacre demonstra "que o conjunto da sociedade brasileira ainda não entendeu o valor da cultura do índio", antes de concluir que "a existência física e cultural dos índios é um valor universal".
Nesta sexta-feira, 20 de agosto, o sóbrio Estado de São Paulo confirma na capa:


Ianomâmis foram mortos em tocaia
São cerca de 40 as vítimas da chacina; Funai confirma que os índios foram atraídos com comida e assassinados por garimpeiros

Para confirmar visualmente o massacre, temos na primeira página uma foto – de arquivo – de duas sorridentes meninas ianomâmis:

Violência
Meninas ianomâmis na Casa do Índio de Boa Vista, Roraima: elas ainda não sabiam do massacre

No caderno Geral, maiores detalhes:

Mortos em massacre de índios podem chegar a 40
Indigenista que esteve no local da chacina diz que homens ianomâmis foram mortos a bala; mulheres e crianças a golpes de facão

Na sub, o procurador não tem dúvidas:

Junqueira classifica ação de 'genocídio'
Aspas, em jornal, quer dizer muitas coisas. Entre elas, que a palavra salientada foi proferida pelo entrevistado. Neste caso, as aspas que cercam genocídio indicam que o procurador usou esta exata palavra. O detalhamento expresso na linha fina, dá maiores dimensões ao massacre: se os homens foram mortos a tiros, para mulher e criança bastou facão. A correspondente Elza Pires, de Brasília, nos transmite a indignação do procurador:
"Se alguém mata vários membros de uma mesma etnia, não há dúvidas de que trata de crime de genocídio e a penalidade deve ser múltipla para os culpados, a depender do número de mortos".
Na foto, diz o texto-legenda:

Morte na selva
Coordenador da Funai, Suami dos Santos, confirma assassinato de ianomâmis
Com uma mão erguida, como quem jura, Suami confirma a chacina. Isso que por enquanto temos apenas 40 trucidados. No dia seguinte, a cifra avança. Ao lado da declaração de Junqueira, o correspondente em Boa Vista nos informa que o ministro Maurício Corrêa fez uma reunião com militares e outras autoridades de Roraima. Quis saber detalhes do que estava ocorrendo, mas "não ouviu nenhum comunicado da confirmação do massacre porque as equipes que estavam na selva não haviam feito contato". A Funai, com toda sua capacitação logística, já está convicta de um genocídio. Nossos generais não conseguem chegar ao local do crime, porque é de difícil acesso.
O intertítulo a seguir não pode ser deixado de lado:
"Imposição – Maurício Corrêa disse aos participantes da reunião que o fato de ter ido para a Roraima imediatamente após a notícia da chacina – ainda sem confirmação – ocorreu por uma imposição do presidente Itamar Franco. O presidente da República exigiu que o ministro se deslocasse imediatamente para a área ianomâmi, para mostrar uma reação à comunidade internacional".
De Brasília, Tânia Monteiro, nos noticia que

Para ministro do
Exército, problema
é da Funai
"O ministro do Exército, general Zenildo Zoroastro Lucena, afirmou ontem que não cabe à corporação interferir na questão da morte dos índios ianomâmis, em Roraima, mas que irá auxiliar a Fundação Nacional do Índio (Funai) no que for preciso. Segundo o ministro, o Exército não conseguiu ainda chegar ao local do massacre, por causa das dificuldades de acesso. Mas disse que, assim que soube do incidente, determinou às unidades militares da área que ajudassem a localizar os corpos". Página seguinte:

VIOLÊNCIA
Itamar pede "operação limpeza" na região
Presidente determinou ao ministro da Justiça o afastamento definitivo dos garimpeiros da área ianomâmi e a apuração das responsabilidades

De Brasília, nos informam Vanda Célia e Marco Antônio Moreira:
"A chacina dos índios ianomâmis incomodou o presidente Itamar Franco e o Comando das Forças Armadas. O presidente determinou, ontem, ao ministro da Justiça, Maurício Corrêa, que providencie, imediatamente, uma "operação-limpeza" na região da reserva indígena dos índios ianomâmis e que apure as responsabilidades pela morte".
Nota-se no texto a pressa do redator, que fala em "responsabilidades pela morte", como se os massacrados fossem um só. Continuam os repórteres:
"O ministro do Exército, general Zenildo Lucena, e o ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Mário César Flores, também estão acompanhando a investigação do que houve na reserva, mas afirmam que as informações e explicações sobre o problema são da responsabilidade do ministro da Justiça, Maurício Corrêa".
O Exército não consegue chegar ao local do massacre, passa a bola para a Funai e ao Ministério da Justiça, mas Itamar se antecipa: quer o afastamento definitivo dos garimpeiros da área ianomâmi. No exterior, a imagem do país se deteriora. Continuam os repórteres de Brasília:
"No Itamaraty, um diplomata confirmou que repercutiu negativamente na Inglaterra, Alemanha, Itália e França a chacina dos índios. As embaixadas já foram acionadas pelo Itamaraty para responder oficialmente que o massacre está sendo apurado pelas autoridades brasileiras".
Um intertítulo cartesiano permite ao leitor respirar:

"Trinômio – Deplorar o acontecido, não esconder informações e anunciar todas as providências que estão sendo adotadas para apurar o caso. O Itamaraty apóia-se nesse trinômio para manter informadas as suas representações no Exterior sobre o massacre que causou a morte de pelo menos 40 índios em Roraima, próximo à fronteira com a Venezuela".
Itamar pede operação-limpeza. O Itamaraty se apóia em um trinômio. De Paris, Reali Júnior alerta sobre as graves conseqüências do massacre:
"O Palácio do Planalto deverá sofrer, nos próximos dias, um verdadeiro 'bombardeio' de cartas de protesto enviadas de toda a Europa exigindo medidas de proteção aos quase dez mil índios ianomâmis que vivem em reservas já demarcadas, mas cujo território, na fronteira com a Venezuela, tem sido frequentemente desrespeitado por garimpeiros.
"Esta mobilização foi anunciada ontem, em Paris, pela etnóloga Simone Dreyfus Gamellon, diretora de estudos do Centro de Altos Estudos de Ciências Sociais, após tomar conhecimento da chacina cometida por garimpeiros".
Em intertítulo, temos uma organização internacional pondo os pés no Brasil.

"Anistia – A pesquisadora francesa apresenta uma condição indispensável para que cessem os massacres contra os ianomâmis: 'é preciso um poder central mais forte que o poder local e um poder civil mais forte que o poder militar'. Sem isto, a seu ver, não há solução. Várias organizações não-governamentais (ONGs), entre elas a Survival International, da qual Simone Gamellon é uma das dirigentes, a dinamarquesa Ingla e o Grupo de Trabalho Internacional sobre Populações Indígenas, já estão se mobilizando para denunciar a situação dos índios brasileiros.
A Anistia Internacional informou ontem que já enviou um representante para a reserva ianomâmi para levantar informações sobre o massacre. Logo que tiver mais dados, a Anistia pretende promover uma 'ação urgente', disse Luiza Soriano, porta-voz da entidade".
Mais adiante a etnóloga francesa diz que "o estado de direito no Brasil não parece ser suficiente para que as leis já existentes sejam corretamente aplicadas. O território dos índios foi demarcado depois de muita luta, mas isto não impede sua constante invasão. Uma outra dificuldade tem sido a própria presença militar numa região de fronteira com a Venezuela, nem sempre compatível com a vida dos ianomâmis, também atingidos por doenças, inclusive Aids. Hoje, após a demarcação da área ianomâmi, pode-se dizer que existe uma proteção jurídica, mas não concreta, pois ela se limita apenas ao papel".
Reali Júnior situa as declarações em um contexto europeu:
"Depois da chacina dos meninos de rua da Candelária esse novo drama vai contribuir para piorar a imagem externa do Brasil, chocando os europeus em pleno período de férias de verão".
Reali Júnior, que vive há duas décadas na França, parece não ter entendido que nada choca um europeu em férias no Egeu ou Mediterrâneo. O único choque que choca um francês no verão, são os novos preços na França na segunda-feira posterior ao primeiro fim-de-semana de setembro.
"O governo do presidente Itamar Franco terá que agir rápido, transmitindo para o Exterior informações precisas sobre as medidas que estão sendo adotadas para prender e punir os culpados e garantir a sobrevivência dos índios ianomâmis", escreve Reali Junior. Numa sub, temos:

Antropólogos defendem
demarcação de terras
"Para os antropólogos, a única forma de acabar com os conflitos de terra entre os índios e garimpeiros ou madeireiros, é a demarcação total das terras, autorizada pela Constituição de 1988 e ainda não concluída. Todos apontam também a necessidade de punição dos culpados pelo massacre. 'Matar índios faz parte da política de governos do Brasil', afirmou a professora da Faculdade de Ciências Sociais da Pontíficia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, Lúcia Helena Rangel.
"Os massacres acontecem há mais de 20 anos, mas a opinião pública só toma conhecimento em casos como esse, em que há requintes de crueldade", Notamos aqui uma pequena discordância das cifras do artista plástico. Syron Franco fala em 493 anos precisos. Segundo a acadêmica Lúcia Helena Rangel, são apenas 20. Entre as opiniões do artista e da cientista há um pequeno hiato de mais de quatro séculos e meio.
No dia seguinte à notícia do massacre, temos:
* 40 ianomâmis massacrados e sobreviventes da chacina.
* Requintes de crueldade.
* Funai e PF encontraram os corpos dos índios, muitos deles mutilados.
* Os criminosos continuam sendo os garimpeiros.
* Detalhe assustador: crianças teriam sido degoladas.
* Uma progressão do massacre: podem ser 40.
* Confirmam-se os corpos decapitados.
* Dez crianças e cinco – ou sete – mulheres mortas.
* A Folha antecipa o conteúdo de uma carta da Survival International, que será enviada ao presidente Itamar Franco. O presidente ainda não recebeu a carta, mas nós já a conhecemos.
* A manifestação vai ocorrer em Londres. Ainda não ocorreu, mas a manchete nos informa que a "Embaixada de Londres é alvo de protesto".
* A CNN confirma o massacre, mas sem imagens. Ocorre que, do massacre propriamente dito, ainda não se tem imagem alguma.
* O Itamaraty informa fartamente 14 de suas representações internacionais, tendo como fonte o caderno "Ianomâmis", da Folha.
* Os outros 106 postos receberam apenas um resumo do fato, porque o custo de transmissão de fax é muito alto.
* O Itamaraty privilegia 14 de suas representações por ter de informar as ONGs. Não há a preocupação de informar Estados, mas entidades privadas.
* Há no Congresso um projeto que proíbe a entrada, nos 9 milhóes de hectares da reserva, de qualquer brasileiro, desde que não seja funcionário público (leia-se Funai), cientistas (leia-se antropólogos) e representantes de entidades não-governamentais (leia-se lobby de governos estrangeiros).
* Em primeira página, o Estado, nos dá mais uma evidência da chacina: meninas ianomâmis sorriem em Boa Vista porque ainda não foram informadas do massacre em Haximu.
* O Exército diz que nada tem a ver com assunto, mas vai ajudar a Funai a localizar os corpos. Ou seja, o massacre existe. Mas os militares não conseguiram chegar ao local da chacina, dadas as dificuldades de acesso. Enquanto personalidades nos Estados Unidos se indignam com o massacre, nossos soldados ainda não conseguiram chegar lá.
* Primeiros garantes do massacre: o índio Antônio, o presidente da Funai, Carlos Romero, e o administrador da Funai em Roraima, Suami Persílio dos Santos.
* Nos Estados Unidos, o biólogo Thomas Lovejoy, a porta-voz do secretário do Interior, Mary Helen, mais Bruce Babbitt e Bruce Rich, revoltam-se contra o massacre.
* Na França, a etnóloga Simone Gamellon pede um poder central mais forte do que o poder local e um poder civil mais forte que o poder militar.
* Brasileiros confirmam: entre outros, Cláudia Andujar (naturalizada), Syron Franco, Mário Covas, Orlando Villas Bôas, o cardeal Arns, Fábio Feldmann, Inocêncio de Oliveira, sem falar no Itamaraty.
* O Itamaraty se apóia em um trinômio: vai deplorar o acontecido, só que até não temos acontecimento algum concreto. Pretende não esconder informações, só que não tem informação alguma. Vai anunciar as providências adotadas para apurar o caso, como se fosse função da diplomacia brasileira fazer investigações policiais. Vai anunciar, mas não anuncia.
* Logo, houve massacre. A barbárie brasileira, como diz a Folha, produziu um genocídio. No verbete objetividade, diz o Manual de Redação da Folha: "não existe objetividade em jornalismo. Ao escolher um assunto, redigir e editá-lo, o jornalista toma decisões em larga medida subjetivas, influenciadas por suas posições pessoais, hábitos e emoções. Isto não o exime, porém, da obrigação de ser o mais objetivo possível.. Para relatar um fato com fidelidade, reproduzir a forma, as circunstâncias e as repercussões, o jornalista precisa encarar o fato com distanciamento e frieza, o que não significa apatia nem desinteresse".


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73 mortos: índio não mente


Estamos no sábado, dia 21 de agosto. Na sexta-feira, o ministro Maurício Corrêa, junto com o procurador-geral Aristides Junqueira, chegou ao local do crime. Estadão, primeira página:

Corrêa constata fim de aldeia ianomâmi

Pé-de-guerra
O ministro Maurício Corrêa, com Davi Yanomâmi, pintado em de guerra, olha maloca queimada na chacina: "Índio não mente"

A chamada:

"O ministro da Justiça, Maurício Corrêa, considerou ontem, em Boa Vista, que a tribo ianomâmi hwaxin-u-thele "foi exterminada". As duas malocas habitadas pelo povo estão queimadas, há cartuchos de espingarda pelo chão, crânio, ossos, couro cabeludo espalhados pelo local e vasilhas perfuradas a tiros. Restos da matança dos cerca de 30 índios por garimpeiros. "Os índios não mentem", disse Corrêa, após ouvir relato de sobreviventes confirmando a chacina".

Página 14, com um chapéu à esquerda:

VIOLÊNCIA
Ministro vai a aldeia e confirma massacre de índios
Malocas estavam queimadas, havia crânio, ossos e couro cabeludo espalhados pelas redondezas e 16 vasilhames perfurados pelos tiros
Interessante observar o recurso usado pelo redator na linha fina. Temos malocas queimadas, assim no plural. Mas "havia crânio", no singular. Um homem, uma cabeça. Já nos "ossos", voltamos de novo ao plural. Sem falar em "16 vasilhames perfurados pelos tiros". Não são vasilhames perfurados por tiros, aí poderia parecer que eventuais tiros foram disparados na oca. São vasilhames perfurados pelos tiros. Quais tiros? Os do massacre, evidentemente.
No texto-legenda, temos a

Reconstituição da chacina
Junqueira (esq.), Corrêa e policial observam ossada de índio assassinado
Como se sabe que os ossos são de índio, e não de garimpeiro, isto o texto não explica. Como o presidente Itamar havia determinado a Maurício Corrêa que se deslocasse até a área ianomâmi para mostrar uma reação ao massacre à comunidade internacional, o ministro, acompanhado de um procurador, teria de no mínímo achar algo. João Domingos, o correspondente em Boa Vista, nos comunica, em texto que traz como selo um rosto de índio partido em dois:
"O ministro da Justiça, Maurício Corrêa, considera que a comunidade ianomâmi Hwaxin-u-chele (povo do Rio Nhambu) foi exterminada. As duas malocas que este povo habitava encontram-se queimadas, há cartuchos de espingarda vazios pelo chão, crânio, ossos de pernas e coluna dorsal espalhados pela redondeza e 16 vasilhames perfurados a tiros. Corrêa esteve na região ontem".
Pausa para refletir. Já se precisou a comunidade massacrada, são os hwaxin-u-chele. Temos ossos, sempre no plural, mas apenas um crânio. A manchete nos faz inferir que os ossos são de índios, afinal o que houve foi um massacre de ianomâmis. Os ossos descarnados e aquele crânio calvo obviamente são de índios.
Quem pode testemunhar um massacre? Apenas os sobreviventes. Mas o correspondente do Estado não os entrevista, que mais não seja desconhece a língua dos hwaxin-u-chele. Seu relato é indireto:
"A partir dos depoimentos dos sobreviventes – Antônio e Japão – ouvidos pelo intérprete Francisco Bezerra de Lima, a Fundação Nacional do Índio (Funai) passou a calcular em cerca de 30 o número de mortos. Maurício Corrêa recebeu a informação de um legista que está na área do massacre que os dados iniciais apontam para a ocorrência do crime há 15 dias. Após ouvir o relato de Antônio e Japão – este último afirma que teve a mulher e o pai mortos – o ministro, que a todo instante procurava saber se o massacre realmente ocorreu, disse acreditar na existência de chacina. "Os índios não mentem". Corrêa quis saber de todos que convivem com os índios se eles realmente só falam a verdade".
Temos então um legista. Quem é este legista e para que instituição trabalha? Que anda fazendo um legista nos confins da Amazônia? Turismo ou trabalho? Nada disso nos é informado. O anônimo especialista não tem dúvidas. O massacre ocorreu, mas não foi tão recente, como imaginam os jornalistas. Em verdade, teria acontecido há 15 dias. O número de mortos diminuiu. Já não são "pelo menos" 40, mas "cerca"de 30. Fica apenas uma pergunta no ar: a partir de quais cadáveres, o tal de legista (por que razões prefere o anonimato, João Domingos não nos esclarece) chegou a tal conclusão?
O ministro Corrêa quis saber de todos que convivem com os índios se eles realmente só falam a verdade. Quem são todos os "que convivem com os índios", no caso? A foto só nos mostra o procurador Junqueira e um policial anônimo. É até possível que mais pessoas "que convivem com os índios" estejam lá no meio do mato, mas delas o correspondente não nos dá notícia. Diz um intertítulo:
"Atraiçoados – Pelas informações conseguidas até agora, parte dos índios deveria estar participando de uma pequena festa, enquanto a maioria voltava de uma caçada. Nesse momento, a cerca de 500 metros da maloca, foram atraiçoados. Duas mulheres sobreviventes, segundo o índio Antônio, foram até o local da festa, na maloca, para relatar a tragédia – o que abre a possibilidade de haver outros sobreviventes, que teriam fugido. Em seguida, voltaram para a proximidade dos corpos para o culto do choro – sagrado entre os ianomâmis – e foram mortas a golpes de facão, mesmo destino dado às crianças. O crânio encontrado no local é pequeno e deve ser de uma das vítimas menores".
Corpos há, tanto que as mulheres sobreviventes voltaram para a proximidade deles, para o culto do choro, sagrado entre os ianomâmis. Só que – fora a ossada do ministro da Justiça – os demais não foram encontrados. Mas "as equipes da Funai e da Polícia Federal vão continuar as buscas atrás dos corpos. Integrantes da Funai acham acham que estes corpos podem estar cremados – a tradição ianomâmi assim o determina – para que as cinzas transmitam a sabedoria aos descendentes. O que leva os técnicos da Funai a concluir pela cremação dos corpos é a existência de palhas de banana dentro das malocas incendiadas. Os índios guardam as cinzas dos corpos em recipientes feitos com a palha de banana". Mais adiante serão potes.

Uma arte mostra o



À direita, uma tripa nos diz:

Presidente
prefere evitar
comentários
De Brasília, nos conta a correspondente Tânia Monteiro:
"O presidente Itamar disse ontem que que só vai comentar a morte dos índios ianomâmis após ouvir o relato do ministro da Justiça, Maurício, que está visitando a área".
Parece existir uma grave falha de comunicação entre o presidente e seu ministro. Maurício Corrêa já confirmou o massacre aos jornais, sem nada ter dito a seu chefe imediato.
Na página seguinte, entrevista com o líder dos criminosos:

Há uma guerra na Amazônia, diz líder garimpeiro
Alegando estar "cansado de ser o vilão da história", José Altino Machado coloca o cargo à disposição e acusa o governo de omissão

Foto de Altino ao lado de avião. Texto legenda:

Vilão da história
Altino: "Quero ver representantes do governo entrar na mata para apartar brigas"
Na linha fina, temos que Altino diz estar cansado de ser o vilão da história. A frase, por ser uma declaração sua, está entre aspas. Na legenda da foto, Altino passa a ser o vilão da história, e desta vez sem aspas..
"Estado – "Não é incoerente abandonar o cargo no momento em que os ianomâmis estão sendo acusadas da chacina dos garimpeiros?"
O porta-voz dos acusados, dá o massacre por contado e se defende:
Altino – "Nossos interlocutores sempre foram delegados, policiais. O governo federal nunca considerou a situação dos garimpeiros, que ficam embrutecidos no meio da selva. Não fui capaz de reverter esta situação e não quero ser o mediador de uma situação criada por garimpeiros e com que eu não concordo. As pessoas sempre discutiram a quantidade de minérios, derrubadas das árvores e poluição dos rios, mas não se preocupam com o homem garimpeiro. Prefiro garantir o anonimato dos bons garimpeiros que não se envolveram com a chacina".
Sem ter visto um só cadáver, o líder dos garimpeiros está confirmando o massacre e nominando seus liderados como culpados. Com uma ressalva: os bons garimpeiros não se envolveram com a chacina.
Logo, responsáveis pela chacina são os maus garimpeiros. Abaixo:

Polícia venezuelana procura acusados de genocídio
De Boa Vista, nos informam os correspondentes Elza Pires e Diana Fernandes:

"O superintendente da Polícia Federal em Boa Vista, Sidney Lemos Vera, mandou abrir inquérito ontem para investigar o massacre contra os ianomâmis. E já tem um suspeito: o garimpeiro João Neto, apontado, por um telefonema anônimo, como o líder do grupo de garimpeiros que assassinou os índios. Policiais federais estão vasculhando os locais mais freqüentados pelos garimpeiros, como bares e prostíbulos na periferia da cidade, à sua procura".
O intertítulo já nos leva ao país vizinho:
"Venezuela – O governo da Venezuela determinou ontem que a Guarda Nacional detenha os garimpeiros brasileiros acusados de cometer o massacre, caso sejam localizados em território venezuelano, segundo informou a agência EFE. O chanceler interino da Venezuela, Fernando Gerbasi, afirmou que dispõe de informação não confirmada de que de acordo com as buscas que estão sendo realizadas pelo governo brasileiro é possível que os garimpeiros tenham cruzado a fronteira. João Neto, teria desaparecido, de acordo com a denúncia anônima, logo após o massacre – ocorrido no último dia 7, conforme esta versão – e possivelmente retornado a Boa Vista.
"Caso os garimpeiros apontados como responsáveis pela chacina dos índios ianomâmis estejam na Venezuela, como suspeita a Polícia Federal, o Ministério da Justiça deverá encaminhar ao governo venezuelano o pedido de extradição, com base em acordo assinado entre os dois países em 1940".
Mais abaixo:

Anunciada nova
ação de retirada
de garimpeiros
De Brasília, Diana Fernandes nos informa que "será deflagrada na próxima semana nova operação para retirada de garimpeiros de terras ianomâmis no Parque Nacional do Pico da Neblina". O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e de Recursos Naturais Renováveis (Ibama), segundo a repórter, estima que mais de 80 garimpeiros estão operando com cerca de 50 balsas e dragas na calha do Rio Negro, na divisa do Parque. "Há suspeitas de que esse grupo esteja envolvido no massacre dos índios ianomâmis".
O ceticismo fica restrito ao pé esquerdo da página:

Governador de Roraima
não acredita em chacina
"Para o governador de Roraima, Ottomar Pinto (PTB), ainda não há evidências concretas de que houve uma chacina de índios ianomâmi no seu Estado, na região próxima à Venezuela".
No entanto, dois parágrafos adiante, diz o redator:
"O governador disse ainda que é possível que os corpos dos índios chacinados estejam espalhados pela região de Haximu, mas é preciso intensificar as buscas antes de fazer esta averiguação".
Há um desejo de massacre no ar. O mesmo redator que, no lead, afirma que o governador não acredita em massacre, dois parágrafos abaixo redige que, segundo o governador, é preciso intensificar as buscas para encontrar os corpos chacinados.
Como o assunto rende, temos mais uma página:

Para Possuelo, impunidade favorece ação contra índio
Ex-presidente da Funai diz que governo deve tomar atitude mais firme e que pensamento antiindigenista é forte na Amazônia

A firmeza maior que Possuelo exige é elementar:
"O governo do presidente Itamar Franco precisa mostrar uma firmeza maior, precisa mostrar com clareza o que vai prevalecer: é a decisão clara de cumprir a Constituição que determina a demarcação das terras indígenas".
À direita, alto de página, temos uma preocupação da correspondente do Estado em Brasília, Diana Fernandes, de informar o leitor com precisão:

Semelhança de
nomes de aldeias
provoca confusão
"O massacre dos índios ianomâmis na região de Xidéia criou também uma polêmica sobre a grafia dos nomes das aldeias da região. Os jornais e TVs usaram formas variadas como Haximu, Homoxi, Haximi-u, Haximu e Hoximu. A Fundação Nacional do Índio (Funai) diz que o nome correto é Homoxi, mas sem muita convicção. "Estão usando também Haximu, mas acho que o certo é Homoxi", disse ontem um confuso funcionário em Brasília".
Para esclarecer a confusão, a jornalista consulta Alcida Rita Ramos, antropóloga, "estudiosa da vida e da cultura dos ianomâmis há 25 anos". Alcida garante "que a aldeia próxima de Xidéia chama-se de fato Homoxi, mas ela ainda não sabe se foi lá que os índios foram mortos".
Se a semelhança de nomes de aldeias provoca confusão inclusive em relação ao local da chacina, no exterior não há maiores dúvidas.

Embaixadas registram um dia movimentado
Segundo Reali Junior, o correspondente do Estado em Paris, "o recente destempero verbal do presidente Itamar Franco criticando a ação passiva de alguns de seus embaixadores no chamado circuito Elizabeth Arden, isto é, junto a governos instalados nas principais capitais da Europa e nos Estados Unidos, quando da chacina dos meninos de rua da Candelária, parece produzir resultados positivos. Um mês depois daquele drama, os embaixadores e diplomatas brasileiros estão tendo oportunidade para mostrar sua competência e agilidade diante do novo drama que envolve a imagem do Brasil, a matança dos índios ianomâmis na Amazônia".
Reali Junior, em intertítulo, nos fala de um
"Comunicado – Não só a representação brasileira em Paris, mas também as demais na Europa, receberam uma farta documentação do Itamaraty, facilitando um comunicado de duas páginas que foi transmitido aos principais órgãos da imprensa européia, mas também às organizações não-governamentais, preocupadas com as informações vindas do Brasil. Elas revelaram que o número de índios massacrados era muito superior ao inicialmente anunciado, atingindo 50 homens, mulheres e crianças.
"O embaixador Carlos Alberto Leite Barbosa decidiu enviar, além do comunicado, uma carta ao jornal francês Le Figaro, que publicou uma ampla reportagem na sua última página destacando o fato. A matéria trata do massacre, mas nada revela sobre as medidas já adotadas para prender os autores do massacre. Também o vespertino Le Monde divulgou a chacina dos ianomâmis em matéria de duas colunas, na sua última página.
"Ao contrário das vezes anteriores, a diplomacia brasileira está se mostrando muito mais ativa nesse novo e triste episódio. Não se trata, como na chacina dos meninos de rua, de tentar explicar o inexplicável, mas mostrar que o governo e a sociedade condenam tais atos e estão dispostos a lutar para que eles não mais se reproduzam no país".
O correspondente nos dá a repercussão na televisão francesa:
"Os jornais de televisão exibiram cenas dos ianomâmis em família, vivendo na floresta e nos rios, para ilustrar o noticiário sobre as circunstâncias desse novo massacre. Na verdade, um dos comentaristas chamava atenção para o fato de que tudo aquilo que depende da tutela do Estado brasileiro está sofrendo importante degradação.
"Na maior parte das vezes, o poder local se sobrepõe ao poder central. Os exemplos foram inúmeros em 1993. A chacina de 100 presidiários do Carandiru, pela Polícia Militar de São Paulo; a execução dos menores de rua da Candelária por policiais cariocas, a matança dos ianomâmis, sem falar da fuga de P.C. Farias, procurado pela Polícia Federal, sob a proteção da Polícia Militar de Alagoas".
Foto com crianças e mães ianomâmis. Em box, a inusitada declaração de Nelson Teixeira de Almeida:

Empresário diz que índio
não mata mulher e criança
"O empresário Nelson Teixeira Almeida não tem dúvidas de que garimpeiros são os responsáveis pelo massacre dos ianomâmis. "Índio não mata crianças e mulheres", disse".

Logo abaixo,

Entidades manifestam preocupação
Se o redator que leu a matéria de Reali Junior, titulou que as embaixadas em Paris tiveram um dia movimentado, o que leu a de Liana John, logo abaixo, a ignora:
"A notícia do massacre dos ianomâmis em Roraima ainda não explodiu no Exterior, mas já se prenuncia uma forte reação".
No pé de página, à direita, há uma nota sugestiva:

Encontro discute
importância da
ética no jornalismo
Na primeira da Folha, do mesmo dia 21,

PF pede prisão de garimpeiro
Líder ianomâmi acusa o governo de negligência; representante do garimpo defende "lei da necessidade"
"A Polícia Federal em Boa Vista pediu à Justiça a prisão preventiva do garimpeiro João Neto, suspeito de ter liderado a chacina na reserva ianomâmi. Efrém Ribeiro informa que o líder ianomâmi Davi Kopenawa acusa o governo de negligência".
Na foto, em meio a uma verde e exuberante aboboreira,
O ministro da Justiça, Maurício Corrêa, e Davi Kopenawa visitam o local do massacre

Uma discreta sub, nos traz outra notícia:


Sendero mata
62 índios em
ataque no Peru
"Guerrilheiros do Sendero Luminoso mataram pelo menos 62 índios ashaninkas na cidade peruana de Satipo. Segundo o governo local, entre os 34 feridos há crianças que tiveram as orelhas cortadas".
A mesma notícia foi dada pelo Estado, no mesmo dia, nas páginas de Internacional, com um pouco mais de ênfase:

Terror do Sendero Luminoso
massacra 62 indígenas no Peru
Em página interna, a Folha, com o aval do procurador-geral da República, aumenta a aposta e fura o Estadão. Lucio Vaz nos informa:

Mortos chegam a 73, diz Aristides
Mais uma aldeia teria sido dizimada; diretor da PF em Boa Vista duvida que garimpeiros sejam encontrados

"O procurador-geral da República, Aristides Junqueira, disse ontem à noite que chega a 73 o número de índios ianomâmis mortos por garimpeiros. Além da Haximu, também a aldeia do Simão teria sido atingida. Segundo as primeiras informações, esta segunda aldeia teria sido dizimada.
"O diretor regional da Polícia Federal em Boa Vista, Sidney Lemos, disse ontem que será muito difícil capturar os garimpeiros acusados da suposta chacina contra os índios ianomâmis, porque a região é acidentada e inviabiliza buscas. Ele pediu ontem à Polícia a decretação da prisão preventiva do garimpeiro João Neto, acusado de ter liderado a chacina".
Dois acontecimentos curiosos. O repórter passa a falar em "suposta chacina". Mesmo sendo suposta a chacina, o diretor regional da Polícia Federal em Boa Vista, Sidney Lemos, quer que a PF decrete a prisão do garimpeiro João Neto, acusado de ser um líderes da chacina. Em sub, Efrém Ribeiro dramatiza:

Maloca parece ter sido bombardeada
"A maloca Haximu parece ter sido bombardeada. No local estão panelas e frigideiras com marcas de balas e cartuchos que não foram detonados. As balas são de espingardas de calibres 23 e 12. A vegetação estava destruída, com indícios de que muitas pessoas passaram pelo local. Os únicos vestígios de mortes são um esqueleto e um crânio. Não foi possível precisar desde quando estão no local".
O que para o ministro Maurício Corrêa constituia prova evidente da chacina, o esqueleto, já não o é necessariamente para o repórter. Mas chacina houve. Logo adiante: "Pelas marcas da vegetação danificada, teria havido uma tentativa de esconder o fato. Alguns utensílios de cerâmica quebrados foram arrumados em fileira junto com ossos soltos".
Em um curto período de duas frases, a segunda destrói a primeira. Os assassinos destroem a vegetação danificada para esconder o fato, mas são deixados ossos no local, sublinhados com uma fileira de utensílios de cerâmica. Ainda na mesma nota:
"O presidente da Funai, Cláudio Romero, disse que os mortos passam de 60. O diretor da Funai em Roraima, Wilk Célio, disse que há informações, cruzadas com sobreviventes do local, de que pelo menos 90 morreram. Romero diz que o número de mortes está sendo avaliado. Considera-se que houve dois massacres. Um no dia ou 11 de agosto, o maior, e o outro, quatro dias antes, quando teria ocorrido a morte de quatro índios".
No pé da notícia:
"O procurador-geral da República, Aristides Junqueira, disse que visitou a maloca ontem pela manhã e não tinha informações suficientes para pedir o indiciamento de responsáveis pelo massacre sob a acusação de genocídio. Segundo ele, o genocídio é um homicídio múltiplo, com pena baseada em homicídio qualificado, que prevê prisão de 12 a 30 anos. Conforme Aristides, no caso do genocídio o responsável pelo crime pode ter a pena multiplicada, tomando como referência o número de pessoas mortas".
No dia anterior, em entrevista ao Estado, o procurador denunciava o genocídio. Agora diz que não tem indícios do mesmo. Em outra sub, à direita:

Funai busca provas materiais
"A PF (Polícia Federal) e a Funai procuravam ontem provas materiais para configurar como genocídio o assassinato de índios ianomâmis na maloca de Haximu. O presidente da Funai, Cláudio Romero, 41, disse ontem à Agência Folha, que estavam sendo procurados potes de cerâmica onde os ianomâmis guardam as cinzas dos mortos, para que pudessem ser utilizadas como provas documentais para caracterizar genocídio.
Ora, neste mesmo 21 de agosto, temos no Estado que, segundo técnicos da Funai, os índios guardam as cinzas dos seus em recipientes de palha de banana. Mais adiante, teremos uma foto de índio mostrando as cinzas de seus mortos, que o leitor não vê por uma simples razão: estão envoltas em folhas de bananeira. E se as visse, delas não tiraria conclusão alguma. Não há diferenças, a olho nu, entre as cinzas de um índio ou de uma onça ou jacarandá.
Voltando à notícia da Folha: "O procurador Aurélio Rios, 31, diz que o crime de genocídio é "do tipo que exige a comprovação de sua materialidade. O assassinato dos seis ianomâmis no final de julho não resultou em abertura de inquérito porque os corpos não foram encontrados".
O líder Davi Kopenawa tem outra hipótese: os índios não incineraram os corpos. Pelo relato dos sobreviventes e vizinhos da maloca de Haximu, os corpos dos índios foram enterrados pelos garimpeiros: "Deixaram só um corpo para dizer que só tinha uma vítima".
O ministro da Justiça confirma que "houve massacre": "Ele afirmou que nas duas malocas que visitou há panelas metralhadas e cortadas por facão, mas disse não ter encontrado cadáveres decapitados".
Já temos o possível refúgio dos assassinos:

Venezuela pode
ser esconderijo
"O embaixador da Venezuela no Brasil, Sebastian Alegrett, admitiu ontem a possibilidade de os supostos garimpeiros responsáveis pela chacina dos ianomâmis terem fugido para o território venezuelano. "Provavelmente foi o que ocorreu", disse Alegret".
Duas páginas adiante, com um título significativo, Abnor Gondim nos comunica:

Conflito anunciado
Caiapós declaram guerra contra o Ibama
Líder indígena diz que não aceita restrições à venda de mogno; grupo já patrocinou dois massacres

"Os índios caiapós da aldeia Gorotire (a 750 km ao sul de Belém) vão abrir guerra contra os servidores do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) se eles entrarem na reserva para impedir a retirada de mogno. A informação é do líder indígena e chefe do Posto da Funai no Gorotire, Pedro Tabô Caiapó, 35. "Se entrar aqui não volta mais e vai ter guerra", disse.
"O ministro do Meio Ambiente, Coutinho Jorge, disse ontem, de Brasília, que o o Ibama não fará ações isoladas para proteger os recursos naturais. "As futuras ações nas reservas indígenas envolverão o Ibama, a Funai, o Ministério das Minas e Energia e, se necessário, a Polícia Federal", disse.
Tabô afirma que os guerreiros da aldeia não vão aceitar que o Ibama ou outro órgão repita lá a apreensão de 5.000 toras de mogno feita, no início do mês, nas áreas indígenas do Pukanu e Kubenkokre (sul do Pará). "Os índios de lá não sabem, mas nós sabemos muito bem que ninguém pode entrar na reserva sem autorização", disse.
O líder caiapó ameaça de morte o brasileiro que entrar na reserva, mesmo que seja para determinar o cumprimento da lei brasileira, impedindo a retirada de mogno. O ministro do Meio Ambiente diz que o Ibama não fará ações isoladas para proteger os recursos naturais. Sugere ações conjuntas, inclusive com a Funai, entidade da qual Tabô é chefe de um posto, e diz que lá ninguém entra para impedir a retirada de mogno.
"Os índios caiapós ficaram temidos como guerreiros ousados no sul do Pará e norte de Mato Grosso, desde agosto e setembro de 80, quando promoveram dois massacres, matando 30 pessoas em duas fazendas. Nenhum índio foi processado pelos crimes cometidos. As ações inibiram invasões em suas terras, que agora envolvem cerca de 11 milhões de hectares contíguos com cerca de 5.00 índios, em 15 aldeias.
"O massacre foi comandado pelo líder indígena Raoni. (Aqui há um lapso do redator: Raoni é txucarramãe). Foram mortos a bordunadas 11 trabalhadores da fazenda São Luís, no norte do Mato Grosso. Raoni chegou a ensaiar golpes de borduna no então presidente da Funai, Carlos Nobre da Veiga, ao ser indagado sobre o massacre".

Logo abaixo

Entidades internacionais fazem protestos
"A Embaixada do Brasil em Washington recebeu ontem cópia de carta enviada ao presidente Itamar Franco, na qual 52 entidades ecológicas e de defesa dos direitos humanos nos EUA acusam "militares e políticos" de "tentar acabar com o direito dos povos indígenas viverem em paz em suas terras".
"O documento diz que os signatários se sentem "ultrajados" com o massacre dos ianomâmis em Roraima e pede ao presidente Itamar que "use o poder de sua posição para ordenar imediatamente a investigação e a punição adequada de todas as pessoas envolvidas nesse ato", que ordene "a expulsão permanente dos milhares de garimpeiros que trabalham ilegalmente no território ianômami"e que "estabeleça sistema de vigilância permanente para impedir a recorrência de invasões".
Logo adiante:
"Ontem também em Londres, representantes da Survival International e mais outras seis organizações não-governamentais entregaram ontem à Embaixada do Brasil carta endereçada ao presidente Itamar exortando o governo brasileiro a remover imediatamente os garimpeiros das reservas ianomâmis e a impedir o uso do aeroporto de Boa Vista para o transporte de suprimentos para os acampamentos dos garimpeiros".
Esta carta, onde a Survival quer condenar à morte pela fome os garimpeiros que cavoucam um bem que pertence, não aos índios, mas à União, não precisava ser entregue na Embaixada Brasileira em Londres. Já havia sido divulgada, em gesto nada diplomático, no dia anterior pela Folha. Ao lado e à esquerda, algumas reações da imprensa internacional.

The New York Times
Nova York
"NYT"dá chamada
de capa à chacina
La Nación
Buenos Aires
Jornal argentino
conta 40 mortos
The Independent
Londres
"O pior ataque
em duas décadas"
The Guardian
Londres
Texto destaca a
situação indígena
Jornal de Notícias
Lisboa
Diário dá 30
índios mortos
Diário de Notícias
Lisboa
Área ianomâmi é igual a Portugal
Telegrama da agência italiana Ansa, catado ao acaso na redação da Folha:

Indias yanomamis embarazadas con vientre abiertos a cuchillo
Brasília, 21 (Ansa) – Al menos a tres indias yanomamis embarazadas les abriron los vientres con cuchillos matando los fetos, en la masacre de 73 índios en la reserva de ese pueblo indigena en el estado de Roraima. Asi lo afirmo hoy el Procurador General de la Republica, Aristides Junqueira, quien regreso esta madrugada del lugar de los hechos. La Fundación Nacional del Indio (Funai) dijo que los indios yanomamis fueron asesinados por garimperos (buscadores de oro), que invadieron la reserva ubicada em Roraima, en la frontera de Brasil con Venezuela. El procurador Junqueira relató, horrorizado, que al menos tres indias embarazadas fueron asesinadas con cuchillos y quedaron con sus barrigas abiertas con golpes cortantes, exponiendo al exterior a los fetos.
"En hipotesis alguna el numero de vítimas esta siendo superestimado. No tengo dudas de que ocurrió un genocidio. Lo que vi fue el escenario de una guerra", dijo Junqueira.

Mal transcorreram 48 horas da notícia.

* O ministro da Justiça vai à aldeia e confirma ao país, através da imprensa, o massacre de índios.
* Segundo o ministro, índio não mente.
* O presidente da República prefere evitar comentários, pelo menos antes de ouvir seu ministro, que já confirmou à imprensa nacional e internacional a tragédia, mas não a seu chefe imediato.
* O delegado nacional da União dos Garimpeiros da Amazônia Legal, José Altino Machado, sem índicio algum de qualquer cadáver, assume o massacre e o atribui – sem usar a expressão, é verdade – a maus garimpeiros.
* O superintendente da Polícia Federal em Boa Vista, Sidney Lemos Vera, a autoridade policial federal mais próxima do local do crime, sem cadáver algum como evidência, abre inquérito para investigar o massacre e tem inclusive um suspeito – a partir de um telefonema anônimo – o garimpeiro João Neto.
* O governo da Venezuela, segundo o Estado, determinou que sejam detidos os garimpeiros brasileiros acusados de cometer o massacre.
* O chanceler interino da Venezuela, Fernando Gerbasi, dispõe de informação – não confirmada – de que é possível que os criminosos, ou seja, os garimpeiros, já tenham cruzado a fronteira.
* Caso isto tenha ocorrido – conforme indicam um telefonema anônimo e uma informação não confirmada – o Ministério brasileiro da Justiça vai encaminhar ao governo venezuelano um pedido de extradição, conforme acordo assinado entre os dois países em 1940.
* O Sendero Luminoso massacra 62 índios no Peru e não vemos protestos das ONGs inundando os jornais nem acenos à ONU.
* A Ansa divulga, urbi et orbi, declarações do procurador-geral da República, Aristides Junqueira, afirmando que três índias grávidas tiveram os ventres abertos a facão e os fetos mortos.


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Desaparecem os corpos
Funai pede intervenção em Roraima
É a manchete de capa do Estado, no dia 22 de agosto.
"O presidente da Funai, Cláudio Romero, vai pedir nesta segunda-feira ao ministro da Justiça, Maurício Corrêa, intervenção federal no Estado de Roraima. Romero disse que foram mortos 73 ianomâmis e não 30 ou 40 como se pensava. Corrêa afirmou que a intervenção não estava em cogitação e que o Conselho de Defesa Nacional vai discutir a chacina amanhã. O governo quer volta de Roraima e Rondônia à condição de Territórios".
Na pág. 23

União deverá propor retomada de RR e RO
Foto de indefectível mãe ianomâmi com filho às costas. De Brasília, a correspondente Vanda Célia nos dá as primeiras repercussões de ordem política da chacina:
"O maior impacto do massacre dos ianomâmis deverá ser no Congresso, onde a União poderá iniciar a luta para retomar o controle direto direto da área geográfica que abrange hoje os Estados de Roraima e Rondônia. Com apoio das bancadas das Regiões Sul, Sudeste e Nordeste, o governo estuda uma maneira de reverter a situação para que esses dois Estados voltem a ser Territórios, ou seja, percam a autonomia de eleger os dois governadores, seis senadores, e 16 deputados federais a partir de 1994".
Mais ainda:
"O comando das Forças Armadas não confia nos políticos eleitos pela Região Norte do País, o que dificulta qualquer estratégia militar com apoio dos representantes civis para preservar a Reserva Ianomâmi e fazer a defesa das fronteiras brasileiras. A informação, carimbada como "secreta", foi transmitida, em confiança, aos parlamentares da Comissão de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, pelo general Sílvio Imbuzeiro. "As estruturas dos governos da Região Norte não são confiáveis", disse o general, segundo testemunho de três parlamentares que estavam na sessão secreta, na semana passada".
Em sub, de Boa Vista, Elza Pires e João Domingos, especialistas em mitologia ianomâmi, nos explicam melhor a cultura ianomâmi:

Índios são cerca de 10 mil
"O confronto entre ianomâmis e garimpeiros não ocorre apenas pela disputa do solo. De acordo com a tradição ianomâmi, toda vez que o minério é extraído do centro da terra libera-se a xawara – fumaça negra que rouba a força dos índios e que, depois de dizimá-los, irá também arrasar com outras raças.
"A força do mal liberada pela xawara contrapõe-se ao deus omami, o avô de todos os ianomâmis. Esta interpretação mitológica é ampla e vale para todo tipo de minério no subsolo – do ouro à cassiterita e urânio, localizados em grandes quantidades na reserva indígena. Davi Ianomâmi, líder da tribo, assegura que o urânio – de onde se produz a bomba atômica – é o minério mais cobiçado pelos garimpeiros atuais. E que o minério servirá para exterminar a raça humana".
O aculturado ianomâmi usa uma langue de bois, típica das esquerdas européias. Talvez devido a seu isolamento no fundo da selva, Davi – cujo nome não é exatamente autóctone – parece não ter ouvido falar que o Muro de Berlim caiu e a Guerra Fria não mais existe.
Os especialistas já começam a esboçar uma pista para esclarecer a inexistência de corpos: "O ritual mais importante dos ianomâmis é o da morte, que se divide em duas partes. Os corpos são cremados. As cinzas, guardadas em recipientes de folhas de bananeira, são misturadas ora com chá, ora com comida para que os descendentes possam adquirir a sabedoria dos mais velhos. Eles não aceitam que os corpos sejam retirados das terras que ocupam.
"A segunda parte do ritual da morte assemelha-se a atos cristãos. Toda a comunidade junta-se numa espécie de velório para chorar. Nesta parte, os amigos começam a lembrar, em voz alta, o lado bom do morto. Enquanto choram, passam cinzas sob os olhos, Devagar, cria-se uma crosta, que só pode ser tirada do rosto pelo próprio tempo".
Daqui para a frente, obviamente, teremos fotos de índios de rostos tisnados. Acima e à direita, Moisés Rabinovici explica melhor o massacre:

Médico calcula
que ocorreram
dois massacres
"Alguns sobreviventes do massacre em Homoxi foram assassinados enquanto tentavam escapar refugiando-se num tapiri, um acampamento de caça. O ataque final dos garimpeiros foi revelado ontem pelo médico Cláudio Esteves de Oliveira, com base em radiogramas enviados por um delegado da Polícia Federal que vasculha a região da chacina".
Com base nos radiogramas enviado pelo delegado da Polícia Federal – cujo nome o médico da Comissão pela Criação do Parque Ianomâmi não revela – continua Rabinovici:
"A Polícia Federal descobriu vários corpos em decomposição e muitos sinais de violência num tapiri em que se refugiaram os sobreviventes das malocas Haximu, em Homoxi", contou o médico em uma entrevista por telefone. Para ele, "está claro que ocorreram dois ataques" – o primeiro, contra a aldeia, e o final, aos fugitivos. O número total de mortos não foi ainda calculado. "Estou tentando saber quantos", acrescenta o médico, que há 2,5 anos trata dos ianomâmis. "Eles só sabem contar até dois, e tudo além disso passa a ser mais de dois. Outro problema é que nessas malocas não existia censo de população. Mas imagina-se que, em cada uma, vivessem 30 pessoas. E posso garantir: as duas foram totalmente dizimadas."
Na pág. 26 do Estado,

Conselho de Defesa Nacional discutirá chacina

Funai vai propor a
ministro da Justiça
intervenção federal
em Roraima
Foto em cinco colunas, de Luiz Prado – com data de 02 de março de 93 – de dois jovens ianomâmis abraçados. Legenda:

Índios ianomâmis: como não conhecem números, a única maneira de saber quantos morreram é tentar lembrar os nomes das vítimas e relatá-los ao sertanista Francisco Lima

"O ministro da Justiça, Maurício Corrêa, informou ontem, em Brasília, que o presidente Itamar Franco vai convocar reunião do Conselho de Defesa Nacional (CDN) para segunda-feira, com o objetivo de discutir a chacina dos ianomâmis. Será a segunda reunião do do CDN em menos de duas semanas. O presidente da Funai, Cláudio Romero, disse que vai pedir intervenção federal no Estado".
Segundo o presidente da Funai, "teriam sido mortos 35 índios adultos (15 seriam do sexo masculino), 35 crianças e três fetos de índias grávidas teriam sido arrancados a golpes de faca".
Em sub, temos os assassinos:

Massacre foi vingança de garimpeiros, diz Corrêa

"O ministro Maurício Corrêa disse ontem que a chacina dos ianomâmis pode ter sido uma vingança de garimpeiros. "A versão que ouvimos no local de pessoas tidas como fontes confiáveis indicam que os índios estavam denunciando os garimpeiros à guarda venezuelana", contou o ministro. "Então, teria sido uma represália".
No pé da página, de Boa Vista, Elza Pires e João Domingos nos informam que

Índios armados e pintados para a guerra assustam ministro

"Quando o ministro da Justiça, Maurício Corrêa, e o procurador-geral da República, Aristides Junqueira, desceram de um helicóptero da Força Aérea Brasileira (FAB), na aldeia de Homoxi, na sexta-feira, tiveram uma surpresa. Esperava por eles um grupo de sete índios guerreiros, totalmente pintados de preto, armados de arco e flecha e bordunas".
"Acostumados com as manifestações de índios pintados para a guerra que ocorrem em Brasília, e que sempre têm sido pacíficas, Corrêa e Junqueira ficaram surpresos. Os guerreiros ianomâmis dirigiram-se até eles aos gritos. Não era nenhuma ameaça, como se constatou depois. Era parte do ritual daqueles que estão agora preparados para a guerra".

Líder do grupo, Davi Ianomâmi, explica
que encenação faz parte de um ritual e
que uma nova investida dos garimpeiros
terá reação imediata
"A aparente hostilidade dos guerreiros não contagiou a aldeia. Mulheres continuaram a amamentar calmamente suas crianças de colo. Os meninos maiores também não interromperam sua rotina. Continuaram com suas brincadeiras prediletas: desenhar helicópteros (na língua deles bru-bru) num quadro-negro posto na parede de um barraco destelhado, e ficar horas agachados rindo de tudo o que acontece ao redor, até do cacarejo das galinhas".
O ministro da Justiça, com a ajuda do intérprete Francisco Bezerra de Lima, interroga os dois sobreviventes da chacina, os índios Antônio e Japão. Eles afirmam, com toda convicção, que houve chacina. Mesmo assim, o ministro permanece desconfiado. Chega inclusive a perguntar a Bezerra, "que conhece a tribo há 25 anos", se os índios não mentem. "Nunca", responde Bezerra.
Um intertítulo nos dá uma informação interessante:
"Matemática – Foi ali que Maurício Corrêa descobriu que os índios ianomâmis não conhecem números. Eles contam só até dois. A partir daí, é tudo "muito". O jeito foi fazer a testemunha lembrar-se do nome dos mortos, enquanto Bezerra fazia as contas nos dedos. Antônio e Japão recordaram-se de 15 homens. Mas se complicaram quando foi a vez de relatar nomes das mulheres. Repetiram alguns, disseram que não sabiam de outros".
Algumas considerações:
* Segundo o médico Cláudio Esteves de Oliveira, não existe censo da população das malocas. Imagina-se que, em cada uma, existam 30 pessoas. Ou seja, um médico que trabalha há dois anos e meio com os ianômamis não consegue saber precisamente quantas pessoas existem em um universo que gira em torno a 30. Mas há um consenso geral, repetido tanto pela Veja como pela Time, de que a população indígena no Brasil, quando Cabral aqui chegou, oscilava entre cinco e seis milhões de almas. Há um outro consenso de que os ianomâmis são dez mil. O difícil é recensear 30.
* Temos agora sete índios guerreiros. Pelo jeito, mesmo em tempos de paz, índio só sabe fazer a guerra. O único ofício até hoje atribuído a um macho indígena é o de guerreiro. Como se guerra fosse profissão.
* Os sobreviventes, ouvidos pelo ministro da Justiça, com a ajuda de um intérprete, falam de 15 homens mortos, sem lembrar do número das mulheres. Ora, no dia 18, a Folha, tendo entrevistado o índio Antônio por rádio, havia constatado 19 mortos, entre eles dez crianças, cinco mulheres e dois homens.

Manchete da Folha, deste mesmo 22 de agosto, na primeira página:

Desaparecem
os corpos dos
ianomâmis,
diz a Funai
Os cadáveres começam a minguar. O correspondente Efrém Ribeiro baixa a bola:
"Equipes da Funai e da PF destacadas para procurar os ianomâmis massacrados constataram o desaparecimento de corpos localizados há três dias, segundo a Funai. Há suspeitas de que garimpeiros voltaram à aldeia para descaracterizar o crime. Ontem, a Funai colheu as primeiras provas materiais: os ossos queimados, arcadas e trouxas com cinzas, que se transformarão em urnas. O diretor da PF em Boa Vista, Sidney Lemos, voltou atrás e negou o pedido de prisão preventiva do garimpeiro João Neto. O presidente Itamar convocou o Conselho de Defesa Nacional".
Na coluna FRASES, da página 2, Davi Kopenawa, "líder dos ianomâmis", denuncia o genocídio urbi et orbi:

"Quero comunicar para
todos do mundo inteiro que
está continuando a matança
do meu povo".

Já temos inclusive um

PILATOS DA SELVA

É o governador Ottomar Pinto, de Roraima, citado pelo Jornal do Brasil:

"Se houve massacre,
o que é que o governo
de Roraima tem
a ver com isso?

A pergunta é pertinente. Só que, ao lavar as mãos, nosso Pilatos hodierno confirma a chacina. Na página de opinião, o senador e ex-ministro da Justiça, Jarbas Passarinho, reitera o massacre.

A volta do genocídio
Um olho reforça o título:

O que ocorreu nos EUA,
na corrida para o ouro,
repetiu-se, sem as proezas
de Custer, em Roraima
Escreve o ex-ministro:
"A chacina de índios ianomâmi, incluindo mulheres e crianças, só pode ser definida como crime hediondo. Não apenas contra a última tribo primitiva da Terra, mas contra o Brasil. Depois que conseguimos retirar nosso país das manchetes da mídia internacional, denunciados como genocidas, esse homicídio coletivo, conjugado com a forma bárbara pela qual se deu, vai pôr-nos outra vez na mira das organizações internacionais, governamentais ou não. Vale contudo chegar às raízes do crime. Elas est&atil